quinta-feira, 4 de março de 2010

Lênin, um democrata? *

O livro Nova História Crítica, de Mário Schmidt, da editora Nova Fronteira, em seu volume único para o Ensino Médio, como todo livro, tem qualidades e defeitos. A principal qualidade é a maneira próxima e muitas vezes informal que o autor conversa com o “leitor-aluno”, procurando, sempre, fazer analogias que facilitem a compreensão do estudante. Muitas vezes, reconheço, essas analogias pecam pela pobreza, mas de qualquer forma é um recurso eficiente para explicar conceitos quase sempre complexos.


Os principais defeitos do livro são seu antiamericanismo bocó, sua visão romântica do socialismo e, claro, a forma deplorável como ele se refere ao sistema capitalista e aos burgueses. Tudo isso faz o autor esquecer a objetividade e a responsabilidade no ensino da história. Em conteúdos em que ideologia turva o entendimento, como é o caso da Revolução Russa, o autor faz uma verdadeira ginástica intelectual para defender o socialismo, a ponto de considerar Lênin um democrata frustrado pelas contingências da vida. Sem poder defender Stálin, o autor exalta a figura do chefe dos bolcheviques durante a Revolução de Outubro, reforçando a tese furada de que o socialismo imaginado por Lênin e, em certa medida, também por Trotsky, fora completamente desvirtuado por Stálin, transformando-se numa ditadura infame e assassina. O objetivo dessa tese é clara: mostrar que o socialismo teorizado por Karl Marx e imaginado por Vladmir Lênin, ainda não aconteceu.


Antes de mostrar os equívocos dessa tese, vou reproduzir trechos do livro de Schmidt que a meu ver contradizem sua afirmação de que o líder dos bolcheviques era na essência um democrata que pelas circunstâncias tornou-se um totalitário.


“ [Lênin] não hesitou em calar a boca de todos aqueles que punham em dúvida os caminhos tomados. Os outros partidos políticos foram proibidos de funcionar. A imprensa ficou controlada pelos bolcheviques. Uma rebelião de marinheiros, influenciada pelos anarquistas, na base de Kronstadt, foi esmagada com energia.” (página 511)


Digam-me aí se essas medidas tomadas por Lênin após a Guerra Civil podem qualificá-lo como um democrata?

Mário Schmidt sugere que as medidas de Lênin se inserem num contexto único de perigo revolucionário. Em outras palavras: as prisões, os banimentos, os assassinatos, a repressão e as medidas antidemocráticas foram necessárias para “salvar a revolução”. Em 1793, os jacobinos – pelo menos esse é o raciocínio de Eric Hobsbawn - adotaram a Política do Terror com o argumento de que a Pátria estava em perigo, justificando as medidas de exceção que levaram à guilhotina 35 mil franceses.


O trecho abaixo seria cômico, se não fosse trágico.


“O dirigente bolchevique [Lênin] estava muito preocupado com o futuro da democracia na URSS. Dizia que o socialismo só poderia triunfar se fosse democrático. Tinha medo da vaidade de Trotski e da brutalidade de Stálin. Propunha dissolver a autoridade pessoal do partido em favor da autoridade coletiva.” (página 511)


Na mesma página, o autor do livro menciona que no testamento político de Lênin, o então líder máximo da União Soviética gostaria que seu sucessor fosse Trotsky. Ao que parece, entre a vaidade de Trotsky e a brutalidade de Stálin, Lênin temia mais a brutalidade.


Não existe nenhum livro escrito por Lênin em que ele defenda a democracia. Desafio alguém a mostrar. Assim como, não há nenhum livro em que Trotsky tenha, mesmo que de longe, defendido a democracia. Em verdade, num livro famoso, Moral e Revolução, o adversário de Stálin condena veementemente valores liberais e democráticos, qualificando-os de burgueses e inadequados para a moral bolchevique. Por itudo isso, soa-me estranho a afirmação de que Lênin esteve preocupado com a democracia na Rússia e que por isso pensava em propor o fim da “autoridade pessoal do partido em favor da autoridade coletiva”, seja lá o que isso signifique.

De concreto, o que se tem é que nos países onde o socialismo triunfou a democracia nunca passou pela cabeça dos dirigentes comunistas. Se é verdade que teóricos como Rosa de Luxemburgo criticavam os rumos da Revolução de 1917 na Rússia, sobretudo porque calcada na falta de liberdade, não é menos verdade de que em nenhum regime político socialista, a democracia, mesmo capenga, existiu.


Lênin pensava em acabar com a autoridade pessoal do partido, mas deixou um testamento transferindo essa autoridade para Trotsky? Não é estranho? Na luta entre Trotsky e Stálin pelo controle do país, venceu aquele que dominava a máquina do partido e perdeu aquele que era tido pelos companheiros de revolução como um intelectual arrogante e presunçoso. A disputa entre os dois não foi por causa do futuro da revolução. Foi pelo poder.


Lênin pensava em acabar com a autoridade pessoal do Partido, mas no X Congresso do Pertido, em março de 1921, acabou aprovando a resolução que discliplinava os críticos de dentro do partido. Admtia a divergência durante os debates, mas depois da aprovação da proposta, exigia dos derrotados a obediência cega! Quem insistisse na dissidência seria "expulso" do partido. Claro que o termo "expulsão" aqui significa prisão, condenação a trabalhos forçados e fuzilamentos.


Lênin pensava em acabar com a autoridade do partido, mas no mesmo congresso aprovou a criação do Politburo, órgão formado por ele e mais 4 membros, depois ampliado para 7 e 9 membros e que na prática centralizavam todas as decisões políticas do país comunista. Se com essas medidas Lênin imaginava em acabar com a autoridade pessoal do partido, assusta-me imaginar se ele quisesse o contrário.


Lênin nunca foi um democrata. Nem quando enchia a cara com vodca russa. Leitor atento de Karl Marx, jamais poderia coadunar com os valores liberais em política. O socialismo seja do ponto de vista econômico, seja do político, não combina com democracia. A história o comprova.


Numa obra recente e obrigatória, A Guerra particular de Lênin, a historiadora britânica, Lesley Chamberlain, revela quão pouco democrático Lênin agiu durante e depois da Guerra Civil. De prisões, passando por confiscos e deportações, até chegar a fuzilamentos sumários de milhares de padres ortodoxos, ou mesmo dissidentes que até há pouco haviam sido companheiros na Revolução, Lênin tinha a mesma sede de sangue que o vaidoso Trotsky e o brutal Stálin. As vítimas de Lênin, em sua esmagadora maioria, tinham cometido um único crime: ousaram discordar do líder e da maneira como a revolução estava sendo conduzida. Leiam com atenção este trecho do livro de Lesley Chamberlain:


“Quando os bolcheviques tomaram o poder, ele ficou furioso[refere-se aqui a Kizevetter, intelectual idealista russo]atacando ‘todo esse fanatismo selvagem e destrutivo lançado sobre Moscou e a Rússia por um punhado de cidadãos russos que se entregaram a atos de inédita maldade contra seu próprio povo e tentam garantir o poder em suas próprias mãos a qualquer preço, violando, com ilimitada desfaçatez, os mesmos princípios de liberdade e irmandade que eles defendem de forma blasfema’”(página 42)


Mais adiante a historiadora continua:


“Praticamente todos os homens na futura relação de Lênin de jornalistas políticos, economistas, críticos literários, filósofos e editores devia sua vaga nos navios à sua participação na campanha antibolchevique pelos jornais. Se alguém escrevesse defendendo o outro lado, provavelmente seria deportado.”

(página 43)


O livro está repleto de exemplos de como o projeto bolchevique imaginado e implantado por Lênin no início da Revolução de Outubro e, sobretudo, durante a Guerra Civil nunca fora democrático. O socialismo, em todos os lugares onde foi implantado, mal grado a vontade de muita gente ingênua, jamais produziu riqueza e igualdade e ainda por cima solapou os valores democráticos, extinguindo as liberdades individuais, alicerces fundamentais de uma sociedade livre.


É falaciosa, portanto, a idéia de que se Lênin não tivesse morrido em 1924 ou mesmo Trotsky tivesse derrotado Stálin, o regime socialista na União Soviética teria tido outro rumo. O que se vê nas obras de Lênin e de Trotski ou nas suas ações políticas, leva-nos a uma conclusão óbvia: leninismo, trotskismo ou stalinismo, não importa: todos desprezavam a democracia, as liberdades e a vida humana. Eram, desde as origens, doutrinas assassinas e liberticidas!

* Texto publicado originalmente em 02 de março de 2009.

Link para a Revolução Russa

Meus caros!

Abaixo, há um link que vai levar vocês a alguns posts escritos em 2009 sobre o conteúdo da Revolução Russa. Recomendo com entusiasmo que vocês acessem a página e leiam com atenção as informações, pois há uma importante revisão desse conteúdo.

(Clique aqui)

Algumas dúvidas que são comuns sobre esse assunto podem ser esclarecidas aqui.


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Texto em PDF e obrigado, Fernanda!





A aluna Fernanda, da 304, num gesto de grande gentileza, encontrou para nós, em formato PDF, o capítulo primeiro do livro Memórias da Segunda Guerra Mundial, de Winston Churchill. Esse capítulo é o texto de referência para a realização do estudo dirigido que está no site da escola. Portanto, quem achar melhor ler o capítulo pelo computador pode acessá-lo clicando aqui.

Atualização: 18:31

Queridos, vejam esta animação aqui sobre o efeito dominó que levou as potências europeias à guerra entre 1914 e 1918. A narração é em inglês, quem se dispuser a traduzir, ótimo! Mesmo assim e apesar disso, as imagens falam por si. Vale a pena!

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Sua formação é tudo!!!

Dando uma pausa nos conteúdos, quero destacar um trecho da entrevista que o dono da Livraria Cultura concedeu à Folha on Line. Antes, para o meu gáudio e contentamento, o senhor Pedro Herz informa que Brasília receberá mais uma unidade da Livraria Cultura em abril ou maio deste ano.

Meus queridos, vocês que estão próximos a ingressar no ensino superior precisam ler com atenção o trecho abaixo. O que ele fala é muito sério e deve servir para uma profunda reflexão. Um diploma universitário por si só é pífio se não for acompanhado por uma boa formação geral.

Muitos ficam indignados comigo quando digo que aprender história não serve para nada. Você não vai ficar mais rico ou mais importante porque aprendeu história, mas se você aprendeu, com certeza vai passar a exibir uma cultura geral sólida e poderá enxergar o mundo longe das lentes do senso comum.

Há muito tempo, lá no século XIX, Castro Alves escreveu um poema chamado O Livro e a América. Nesse poema há um verso famoso que diz:

Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!

Leiam, meus caros! Leiam!

Abaixo o trecho da entrevista que quero destacar. A íntegra aqui.

Folha - O sr. vê algum novo nicho a ameaçar as vendas de livros nas livrarias?

Herz - A grande ameaça que existe é a não-formação de novos leitores. As famílias [ricas] que tinham cinco filhos há um século, hoje ou não têm nenhum ou têm um, no máximo dois. O número de leitores cresce pouco, se é que cresce. Se você pegar o universo da classe D, esse pai não tem orgulho nenhum do que faz, nem a mãe. Então a compra de um lápis significa para ele um investimento na educação de um filho. Acho isso extremamente bacana, é um raciocínio válido, mas sabemos que é insuficiente. O apagão do ensino taí, a dificuldade que temos de admitir gente é homérica. A gente aplica testes básicos dos básico de conhecimentos gerais razoáveis. A gente quer que o candidato leia jornais, uma revista, que seja atualizado. Você pergunta para ele quem escreveu "Dom Casmurro", metade levante e vai embora. E são todos universitários formados. E não sou o único que tem esse tipo de problema. Falei com outros empresários, de outras áreas, que têm exatamente o mesmo problema. Gente que não encontra engenheiros, que não encontra médicos. Veja o resultado do Enem. Está difícil acreditar. Esse crescimento anunciado é sustentado? Ou é um momento de paternalismo que está aí? Estou procurando gente [para as lojas] no Nordeste, tem gente que não quer ser registrada. Perguntamos por que, e dizem: "Ah, porque eu recebo a Bolsa [Família], minha mulher recebe a Bolsa. E a população cresce nesses lugares do Nordeste. E gente esclarecida que pode ter filhos está tendo cada vez menos, se é que está tendo. Conheço casais de amigos, leitores, muito bem casados, felizes, que preferiram não ter filhos.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Explicações.


Caríssimos,

Como sói acontecer em dias de folia momesca, descobri, para o meu desencanto, que a minha senha não consegue acessar o sistema da escola; e que, por isso, não pude dispor na internet o exercício de revisão sobre a I Guerra Mundial. Até pensei em colocá-lo aqui no blog, mas a configuração ficaria esquisita. De qualquer modo, amanhã, na escola, vou resolver pela segunda vez o problema, e assim, cumprir, o prometido.

Abaixo, vocês podem conferir os 14 Pontos de Wilson.

OS 14 PONTOS DE WILSON




Presidente Thomas Woodrow Wilson (1912-1921)



"Os 14 pontos foram apresentados em 8 de janeiro de 1918 ao Congresso dos EUA, que o rejeitou, sob a forte influência do isolacionismo na política externa americana. A rejeição deixou os EUA de fora da Liga --que anos mais tarde falhou em evitar a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Depois das complexas negociações entre as nações vencedoras e aliadas, que envolveram discussões sobre a retomada de terras dominadas e conflitos anteriores à Primeira Guerra, uma versão reformulada do tratado de 14 pontos foi aprovada.

Um mês depois, em 28 de junho de 1919, em Paris, o estatuto da Liga das Nações foi assinado como parte do Tratado de Versalhes, que definiu as cláusulas do fim da guerra. A primeira assembléia geral da Liga foi realizada em 15 de novembro de 1920, na neutra Genebra.

Conheça os 14 pontos da proposta de paz de Woodrow Wilson:


1) Inaugurar pactos de paz, depois dos quais não deverá haver acordos diplomáticos secretos, mas sim diplomacia franca e sob os olhos públicos;

2) Liberdade absoluta de navegação nos mares e águas fora do território nacional, tanto na paz quanto na guerra, com exceção dos mares fechados completamente ou em parte por ação internacional em cumprimento de pactos internacionais;

3) Abolição, na medida do possível, de todas as barreiras econômicas entre os países e o estabelecimento de uma igualdade das condições de comércio entre todas as nações que consentem com a paz e com a associação multilateral;

4) Garantias adequadas da redução dos armamentos nacionais até o menor nível necessário para garantir a segurança nacional;

5) Um reajuste livre, aberto e absolutamente imparcial da política colonialista, baseado na observação estrita do princípio de que a soberania dos interesses das populações colonizadas deve ter o mesmo peso dos pedidos equiparáveis das nações colonizadoras;

6) Retirada dos Exércitos do território russo e solução de todas as questões envolvendo a Rússia, visando assegurar melhor cooperação com outras nações do mundo. O tratamento dispensado à Rússia por suas nações irmãs será o teste de sua boa vontade, da compreensão de suas necessidades como distintas de seus próprios interesses e de sua simpatia inteligente e altruísta;

7) Bélgica, o mundo inteiro concordará, precisa ser restaurada, sem qualquer tentativa de limitar sua soberania a qual ela tem direito assim como as outras nações livres;

8) Todo território francês deve ser libertado e as partes invadidas restauradas. O mal feito à França pela Prússia, em 1871, na questão da Alsácia e Lorena, deve ser desfeito para que a paz possa ser garantida mais uma vez, no interesse de todos;

9) Reajuste das fronteiras italianas, respeitando linhas reconhecidas de nacionalidade;

10) Reconhecimento do direito ao desenvolvimento autônomo dos povos da Áustria-Hungria, cujo lugar entre as nações queremos ver assegurado e salvaguardado;

11) Retirada das tropas estrangeiras da Romênia, da Sérvia e de Montenegro, restauração dos territórios invadidos e o direito de acesso ao mar para a Sérvia;

12) Reconhecimento da autonomia da parte da Turquia dentro do Império Otomano e a abertura permanente do estreito de Dardanelos como passagem livre aos navios e ao comércio de todas as nações, sob garantias internacionais;

13) Independência da Polônia, incluindo os territórios habitados por população polonesa, que devem ter acesso seguro e livre ao mar;

14) Criação de uma associação geral sob pactos específicos para o propósito de fornecer garantias mútuas de independência política e integridade territorial dos grandes e pequenos Estados.

Fonte: Folha on line

PS: clique aqui e saiba um pouco mais sobre as razões da entrada dos Estados Unidos na I Guerra Mundial, inclusive sobre os ataques dos submarinos alemães a navios norte-americanos.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

As tensões na África antes da I Guerra Mundial



Foto de satélite do Canal de Suez, cortesia NASA.


Alguns alunos me pediram para que expusesse aqui um breve resumo sobre a Questão de Suez, a Questão Marroquina e a Guerra dos Bôeres. Espero atender às expectativas de vocês.

A QUESTÃO DE SUEZ.

A construção do canal de Suez, na segunda metade do século XIX (1859 -1869), foi uma das grandes realizações de engenharia da época. O canal, construído por uma empresa francesa, tinha como objetivo encurtar as viagens entre o oriente e a Europa, permitindo que as embarcações entrassem pelo mar Vermelho e através do canal passassem para o mar Mediterrâneo; evitando, assim, o longo trajeto que se fazia anteriormente, isto é, atravessando o oceando índico em direção ao atlântico, pelo sul da África, até chegar a Europa.

Houve, desde o princípio, um acordo de que não deveria existir restrição a embarcações de quaisquer países que desejassem passar pelo canal. Contudo, o aumento das tensões diplomáticas entre as potências europeias no final do séculoXIX e início do século XX, obrigou que as potências assinassem compromissos claros para garantir a livre circulação das embarcações. Durante a I Guerra, a Inglaterra que passara a controlar o canal, fechou-o para as nações inimigas.

Desde a inauguração do canal, em 17 de novembro de 1869, o mesmo era controlado pela França e pelo Egito. Contudo, em 1875, o governo inglês comprou do país africano a participação acionária, passando a dividir com a França a administração do canal de Suez. Tal situação gerou uma série de desentendimentos entre as duas potências que só foram solucionados em 1904, quando foi assinado um acordo entre os dois países. Em troca do apoio inglês na conquista do Marrocos, a França abandonaria o Egito, deixando o canal para os ingleses.¹


QUESTÃO MARROQUINA
²

Em 1911, a Alemanha partiu para a ofensiva, colocando fim aos anos de hesitação e discrição política. O envio do navio de guerra Pantera a Agadir, no Marrocos, e a conseqüente ocupação da cidade por tropas alemãs foram planejados como uma garantia do lado alemão frente a futuras negociações entre a França e a Inglaterra.

A Convenção de Madri, em 1880, havia assegurado ao sultanato a independência do país. Apesar disso, o Marrocos continuou a ser pelos anos que se seguiram o pomo da discórdia entre as potências européias, em razão das suas ricas reservas naturais.

Também o Império alemão mantinha intensas relações comerciais com o Marrocos. Para a Alemanha, as desavenças entre as potências coloniais França e Inglaterra, em relação à região, vinham até mesmo a calhar. Berlim apresentava-se, de certa forma, como o terceiro envolvido que tirava proveito da questão, enquanto Londres e Paris defrontavam-se com desconfiança mútua, não apenas por causa da questão marroquina.

Essa situação mudou a partir de 1904, após a assinatura da entente cordiale entre a França e a Inglaterra. Nesse acordo, ficaram esclarecidas várias desavenças entre os dois países com relação a diversos territórios espalhados pelo mundo.

O principal ponto do acordo dizia respeito à divisão do norte da África: o Egito foi posto na esfera de interesses de Londres, e Marrocos, na de Paris. Falava-se na época de uma "penetração pacífica" nessas regiões. A Alemanha, por sua vez, viu suas relações comerciais ameaçadas pelo pacto franco-inglês.

Prova de fogo

A primeira crise do Marrocos chegou ao ápice no ano de 1905, quando o imperador Guilherme 2º decidiu viajar a Tânger, com o objetivo de colocar à prova o acordo entre a França e a Inglaterra. O imperador alemão foi recebido com todas as honrarias e fez uma declaração que aludia claramente ao papel da França: "Espero que, sob o domínio do sultão, um Marrocos livre e soberano abra-se para uma concorrência pacífica entre todas as potências européias".

Enquanto isso, na França, disseminavam-se os protestos de indignação. Em Londres e Paris, cogitou-se até mesmo uma intervenção militar contra a Alemanha. O Império Alemão, no entanto, conseguiu impor a sua exigência de uma conferência internacional que discutisse o assunto.

Com ela, a França deveria sentir-se isolada no cenário político e forçada a abandonar a entente. Entretanto, a conferência realizada em abril de 1906 em Algeciras, no sul da Espanha, acabou por provar o contrário: foi a Alemanha que saiu isolada do conflito. Em caso de uma guerra envolvendo o Marrocos, apenas o Império Austro-húngaro estaria do lado dos alemães.

A entente cordiale saiu fortalecida da conferência. Entre outras resoluções, ficou estabelecido que a vigilância policial dos portos marroquinos ficaria a cargo da França e da Espanha. As relações franco-alemãs continuavam estremecidas.

Em 1911, o conflito agravou-se ainda mais com a ocupação da cidade marroquina Fès por tropas francesas. A cidade, sede da monarquia, tornou-se um foco de agitações e tumultos. A independência do Marrocos, assim como tinha sido sublinhada pela Convenção de Algeciras, mostrava ser apenas uma farsa.

O imperador Guilherme 2º comentou, após a ocupação francesa: "A questão miserável do Marrocos tem que ser encerrada rápida e definitivamente. Não há nada mais a fazer, o país vai tornar-se francês. A solução é, então, abandonar o conflito de cabeça erguida".

A barganha

No Ministério alemão das Relações Exteriores, cogitou-se uma troca: Berlim abdicaria de seus interesses no Marrocos e ganharia, com isso, o Congo francês. Para dar força a essa exigência, o navio de guerra Pantera aportou em Agadir, provocando uma verdadeira crise.

A Europa encontrava-se à beira de uma guerra, em função da escalada na crise do Marrocos. França e Inglaterra, parceiros da entente cordiale, uniam-se cada vez mais. Os dois países estavam dispostos a tudo, menos a ceder à pressão alemã.

No final do conflito, Berlim teve de satisfazer-se com um mínimo de exigências. Uma parte do Congo francês, com a superfície de 263 mil km², foi transferida para o Império Alemão em 4 de novembro de 1911.

Em troca, Berlim teve de abrir mão de parte de Camarões, então sua colônia. Um fiasco para a política alemã. As relações entre a França e a Alemanha continuaram estremecidas e trouxeram principalmente uma conseqüência: um desenrolar contínuo da espiral da política armamentista na Europa.

A GUERRA DOS BÔERES (1899-1902)

Os bôeres ou africâners eram os descendentes de holandeses, nascidos na África, e que lutavam por autonomia política em relação aos ingleses que dominavam o sul do continente africano. Em 1852 e 1853, os bôeres tiveram as suas repúblicas, a do Orange e a do Transvaal, reconhecidas como autônomas em relação ao império britânico que dominava a região mais ao sul da África. (Veja o mapa abaixo)



No entanto, as descobertas de minas de ouro e diamantes nas terras bôeres fez o governo britânico mudar sua política em relação a esses colonos e aos nativos, passando a anexar territórios com o uso da força.

Ciosos de sua autonomia, os bôeres travaram uma guerra com os britânicos entre 1877 e 1881 (I Guerra dos Bôeres) e evitaram, nesse momento, a anexação, mantendo a autonomia de suas repúblicas. Contudo, a pressão inglesa voltou a ficar forte no final do século XIX, ocorrendo um novo conflito entre 1899 e 1902 (II Guerra dos Bôeres), dessa vez com a vitória inglesa que acabou transformando as repúblicas do Orange e do Transvaal em colônias britânicas formando assim a União Sul-africana.³

É fundamental entender que as tensões que envolveram as potências européias no continente africano no final do século XIX e início do século XX evidenciam a disputa por territórios - o que na prática significava acesso a minérios, matéria-prima e outras riquezas indispensáveis às potências, além da reserva de mercado que tais colonias se tornariam para esses países. Também é importante ressaltar que as desconfianças mútuas e as animosidades entre as potências intensificaram-se diante dessas disputas por colônias na África.


Notas:

1 - O trecho foi retirado do livro Viver a História, Cláudio Vicentino, editora scipione, pág 197.

2 - Toda a informação contida no post sobre a Questão Marroquina foi retirada deste site. Decidi utilizá-lo na íntegra porque está muito bem explicado.

3 - A informação sobre a Guerra dos Bôeres teve como base as informações deste site.