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| Lênin, em abril de 1917. |
O livro Nova História
Crítica, de Mário Schmidt, da editora Nova Fronteira, em seu volume
único para o Ensino Médio, como todo livro, tem qualidades e defeitos. A
principal qualidade é a maneira próxima e muitas vezes informal que o
autor conversa com o “leitor-aluno”, procurando, sempre, fazer analogias
que procuram facilitar a compreensão do estudante. Muitas vezes,
reconheço, essas analogias pecam pela pobreza; mas de qualquer forma é
um recurso eficiente para explicar conceitos quase sempre complexos.
Os
principais defeitos do livro são seu antiamericanismo bocó, sua visão
romântica do socialismo e, claro, a forma deplorável como ele se refere
ao sistema capitalista e aos burgueses. Tudo isso faz o autor esquecer a
objetividade e a responsabilidade no ensino da história.
Em conteúdos
em que a ideologia turva o entendimento, como é o caso da Revolução
Russa, o autor faz uma verdadeira ginástica intelectual para defender o
socialismo, a ponto de considerar Lênin um democrata frustrado pelas
contingências da vida. Sem poder defender Stálin, o autor exalta a
figura do chefe dos bolcheviques durante a Revolução de Outubro, reforçando
a tese furada de que o socialismo imaginado por Lênin e, em certa
medida, também por Trotsky, fora completamente desvirtuado por Stálin,
transformando-se numa ditadura infame e assassina. O objetivo dessa tese
é clara: mostrar que o socialismo teorizado por Karl Marx e imaginado
por Vladmir Lênin, ainda não aconteceu.
Antes
de mostrar os equívocos dessa tese, vou reproduzir trechos do livro de
Schmidt que a meu ver contradizem sua afirmação de que o líder dos
bolcheviques era, na essência, um democrata, e que pelas circunstâncias
tornou-se um totalitário.
“
[Lênin] não hesitou em calar a boca de todos aqueles que punham em
dúvida os caminhos tomados. Os outros partidos políticos foram proibidos
de funcionar. A imprensa ficou controlada pelos bolcheviques. Uma
rebelião de marinheiros, influenciada pelos anarquistas, na base de
Kronstadt, foi esmagada com energia.” (página 511)
Digam-me aí se essas medidas tomadas por Lênin após a Guerra Civil podem qualificá-lo como um democrata?
Mário
Schmidt sugere que as medidas de Lênin se inserem num contexto único de
perigo revolucionário. Em outras palavras: as prisões, os banimentos,
os assassinatos, a repressão e as medidas antidemocráticas foram
necessárias para “salvar a revolução”. Em 1793,
os jacobinos – pelo menos esse é o raciocínio de Eric Hobsbawn -
adotaram a Política do Terror com o argumento de que a Pátria estava em
perigo, justificando as medidas de exceção que levaram à guilhotina 35
mil franceses.
O trecho abaixo seria cômico, se não fosse trágico.
“O
dirigente bolchevique [Lênin] estava muito preocupado com o futuro da
democracia na URSS. Dizia que o socialismo só poderia triunfar se fosse
democrático. Tinha medo da vaidade de Trotski e da brutalidade de
Stálin. Propunha dissolver a autoridade pessoal do partido em favor da
autoridade coletiva.” (página 511)
Na
mesma página, o autor do livro menciona que no testamento político de
Lênin, o então líder máximo da União Soviética gostaria que seu sucessor
fosse Trotsky. Ao que parece, entre a vaidade de Trotsky e a
brutalidade de Stálin, Lênin temia mais a brutalidade.
Não
existe nenhum livro escrito por Lênin em que ele defenda a democracia.
Desafio alguém a mostrar. Assim como, não há nenhum livro em que Trotsky
tenha, mesmo que de longe, defendido a democracia. Em verdade, num
livro famoso, Moral e Revolução,
o adversário de Stálin condena veementemente valores liberais e
democráticos, qualificando-os de burgueses e inadequados para a moral
bolchevique. Por tudo isso, soa-me estranho a afirmação de que Lênin
esteve preocupado com a democracia na Rússia e que por isso pensava em
propor o fim da “autoridade pessoal do partido em favor da autoridade coletiva”, seja lá o que isso signifique.
De
concreto, o que se tem é que nos países onde o socialismo triunfou a
democracia nunca passou pela cabeça dos dirigentes comunistas. Se é
verdade que teóricos como Rosa de Luxemburgo criticavam os rumos da
Revolução de 1917 na Rússia, sobretudo porque calcada na falta de
liberdade, não é menos verdade de que em nenhum regime político
socialista, a democracia, mesmo capenga, existiu.
Lênin
pensava em acabar com a autoridade pessoal do partido, mas deixou um
testamento transferindo essa autoridade para Trotsky? Não é estranho?
Na luta entre
Trotsky e Stálin pelo controle do país, venceu aquele que dominava a
máquina do partido e perdeu aquele que era tido pelos companheiros de
revolução como um intelectual arrogante e presunçoso. A disputa entre os
dois não foi por causa do futuro da revolução. Foi pelo poder.
Lênin pensava em acabar com a autoridade pessoal do Partido, mas no X Congresso do Partido,
em março de 1921, acabou aprovando a resolução que discliplinava os
críticos. Admtia a divergência durante os debates, mas depois da
aprovação da proposta, exigia dos derrotados a obediência cega! Quem
insistisse na dissidência seria "expulso" do partido. Claro que o termo
"expulsão" aqui significa prisão, condenação a trabalhos forçados e
fuzilamentos.
Lênin pensava
em acabar com a autoridade do partido, mas no mesmo congresso aprovou a
criação do Politburo, órgão formado por ele e mais 4 membros, depois
ampliado para 7 e 9 membros e que na prática centralizava todas as
decisões políticas do país comunista. Se com essas medidas Lênin
imaginava acabar com a autoridade pessoal do partido, assusta-me
imaginar se ele quisesse o contrário.
Lênin nunca
foi um democrata. Nem quando enchia a cara com vodca russa. Leitor
atento de Karl Marx, jamais poderia coadunar com os valores liberais em
política. O socialismo seja do ponto de vista econômico, seja do
político, não combina com democracia. A história o comprova.
Numa obra recente e obrigatória, A Guerra particular de Lênin, a historiadora britânica, Lesley Chamberlain, revela quão pouco democrático Lênin agiu durante e depois da Guerra Civil. De
prisões, passando por confiscos e deportações, até chegar a
fuzilamentos sumários de milhares de padres ortodoxos, ou mesmo
dissidentes que até há pouco haviam sido companheiros na Revolução.
Lênin tinha a mesma sede de sangue que o vaidoso Trotsky e o brutal
Stálin. As vítimas dele, em sua esmagadora maioria, tinham cometido um
único crime: ousaram discordar do líder e da maneira como a revolução
estava sendo conduzida.
Leiam com atenção este trecho do livro de Lesley Chamberlain:
“Quando
os bolcheviques tomaram o poder, ele ficou furioso[refere-se aqui a
Kizevetter, intelectual idealista russo]atacando ‘todo esse fanatismo
selvagem e destrutivo lançado sobre Moscou e a Rússia por um punhado de
cidadãos russos que se entregaram a atos de inédita maldade contra seu
próprio povo e tentam garantir o poder em suas próprias mãos a qualquer
preço, violando, com ilimitada desfaçatez, os mesmos princípios de
liberdade e irmandade que eles defendem de forma blasfema’”(página 42)
Mais adiante a historiadora continua:
“Praticamente
todos os homens na futura relação de Lênin de jornalistas políticos,
economistas, críticos literários, filósofos e editores devia sua vaga
nos navios à sua participação na campanha antibolchevique pelos jornais.
Se alguém escrevesse defendendo o outro lado, provavelmente seria
deportado.” (página 43)
O livro está
repleto de exemplos de como o projeto bolchevique imaginado e implantado
por Lênin no início da Revolução de Outubro e, sobretudo, durante a
Guerra Civil nunca fora democrático. O socialismo, em todos os lugares
onde foi implantado, mal grado a vontade de muita gente ingênua, jamais
produziu riqueza e igualdade e ainda por cima solapou os valores
democráticos, extinguindo as liberdades individuais, alicerces
fundamentais de uma sociedade livre.
É falaciosa,
portanto, a idéia de que se Lênin não tivesse morrido em 1924, ou mesmo
Trotsky tivesse derrotado Stálin, o regime socialista na União Soviética
teria tido outro rumo. O que se vê nas obras de Lênin e de Trotsky ou
nas suas ações políticas, leva-nos a uma conclusão óbvia: leninismo,
trotskismo ou stalinismo, não importa: todos desprezavam a democracia,
as liberdades e a vida humana. Eram, desde as origens, doutrinas
assassinas e liberticidas!
* Artigo publicado originalmente em 20 de março de 2009.