A segunda informação relevante é que a Rússia era tão atrasada em relação a Europa ocidental que até o calendário que eles adotavam era diferente. Os russos ainda utilizavam o calendário Juliano, atrasado em 13 dias em relação ao calendário Gregoriano, utlizado no ocidente. Por isso, quando se fala em Revolução de Fevereiro e Revolução de Outubro, está se usando o calendário Juliano. Fosse no nosso calendário, as ditas revoluções teriam ocorrido em março e em novembro.
A insatisfação de vários setores sociais da Rússia com a política do Czar Nicolau II era evidente. Entre os liberais, do partido Kadete, a insatisfação se dava com a maneira absolutista que o imperador russo governava o imenso império. Com os socialistas do Partido Social-Democrata da Rússia, marxistas, a insatisfação se dava, sobretudo, com a situação de miséria no campo e a exploração do operariado nas fábricas.
Em relação ao partido social-democrata, é importante ressalvar que, a patir de 1903, ele se dividiu em dois grupos: os mencheviques (minoria, em russo) e bolcheviques (maioria, em russo). Embora marxistas (seguidores de Karl Marx), esses dois grupos divergiam quanto à forma de se chegar ao socialismo. Marxistas ortodoxos, os mencheviques entendiam que era preciso primeiro desenvolver o capitalismo na Rússia para só depois implantar o socialismo no país, por isso, não eram contrários a aproximação com a burguesia. Já os bolcheviques entendiam que era possível implantar o socialismo de imediato, desde que se unissem aos operários e aos camponeses, rechaçando qualquer aproximação com setores liberais ou burgueses. Com o tempo, essas duas correntes do Partido Social-Democrata Russo também se tornaram partidos políticos.
Além desses partidos, todos clandestinos, diga-se, intelectuais russos também desaprovavam o governo do czar e imaginavam que somente num ambiente democrático e livre, a Rússia poderia, finalmente, progredir.
A construção de uma ferrovia na Sibéria provocou um conflito do império com o Japão, que apesar de ter se industrializado somente nos finais do século XIX, estava bem mais desenvolvido que o gigante russo e, por isso, derrotou a Rússia, na Guerra Russo-Japonesa, agravando a crise política no império e abalando ainda mais o prestígio do czar diante do povo.
Em 9 de janeiro de 1905, um domingo, milhares de manifestantes, liderados por um padre da Igreja Ortodoxa Russa, foram até o Palácio de Inverno onde ficava o imperador para lhe entregar uma carta com uma série de reivindicações, como a redução da jornada de trabalho, eleições para Duma e mais liberdade. Apesar de desarmados, os manifestantes foram recebidos a bala pelos guardas do Palácio, conhecidos como cossacos, provocando um verdadeiro massacre, que entrou para a história com o nome de Domingo Sangrento. Abaixo, assista a um vídeo de 3 minutos e 11 segundos sobre esse massacre, reproduzido no filme O Encouraçado Potemkin, de 1925, filmado pelo cineasta russo Sergei Eisenstein.
A partir desse massacre, revoltas, como a do encouraçado Potemkin, na região de Odessa, greves e a criação dos sovietes (conselhos formados por soldados e operários) eclodiram em diversas partes da Rússia, obrigando Nicolau II a recuar politicamente e a aceitar uma série de exigências, como a convocação de uma eleição para o parlamento russo (Duma). Contudo, depois de passado o momento mais crítico, o czar foi anulando todas as medidas tomadas e em pouco tempo a Rússia voltava ao mesmo quadro absolutista de antes.
Essas revoltas espontâneas ficaram conhecidas como Ensaio Geral, uma espécie de prelúdio da Revolução de 1917.
Seria preciso esperar que os efeitos desastrosos da participação do país na I Guerra Mundial se fizessem sentir na população russa, para que as forças opositoras do czar, finalmente, o depusesse do trono, dando início à revolução.
Assistam ao Domingo Sangrento.
